quarta-feira, 25 de maio de 2016

Ouvi falarem

Ouvi falarem uma história e ela começava assim: o dono de uma mercearia estava atendendo no caixa quando uma cliente mal-encarada veio pagar um quilo de feijão. Na hora de tirar notas da bolsa, o homem viu que algo, talvez dinheiro enrolado, caíra no chão sem que a cliente notasse. Numa fração de segundo, ele decidiu não avisar nada, pois, pensou, ela tinha a aparência de gente orgulhosa e insolente e, possivelmente, não diria nenhum “obrigado”. Sendo assim, a deixou ir embora sem o seu tão amado dinheiro. Depois disso, sem considerar tomá-lo para si, o homem pensou em avisar uma de suas empregadas, mas, observando-a, concluiu que ela não estaria tão necessitada. Pelo menos se comparada com o pobre Zé-do-arroz, rato sujo sempre à procura de qualquer migalha no chão! Então, após algum tempo, o homem resolveu avisar o Zé, que prontamente deu a volta no balcão para resgatar a nota enrolada, que poderia ser de 100, mas era de dois. O que não fazia a menor diferença, pois dinheiro era dinheiro! Ainda mais de graça! Porém, antes mesmo que o rato se aproximasse do queijo dourado, um cliente pegou a nota, pensando em devolver ao dono da loja. O dono apontou o dedo para o rato que se aproximava que, sem demora embolsou a quantia. Mas será que o rato sequer lembrou-se de abrir a boca suja para dizer “obrigado”? De jeito nenhum, continuou seu atendimento no balcão como se nada tivesse acontecido! E assim continuou. Ora, nesse momento da história me lembrei de vários ditados populares. Por exemplo, “quem tem pena do miserável fica no lugar dele”, “o que é dado não tem valor” e ainda o homem cuja vida é salva odiará para sempre seu salvador”, pois a gratidão é um fardo insuportável. Por outro lado, fazer o bem esperando um agradecimento, pode ser visto como uma espécie de comércio/troca e, portanto, sendo a negação do ideal de bondade. Pois deve-se simplesmente fazer o bem, sem ver a quem. Mas não tenho certeza de que concordo com essa reflexão. Pois, num mundo que se considera “civilizado”, faz parte das convenções sociais agradecer por qualquer dádiva ou favor. Mas talvez eu esteja me enganando, já que o mundo real é povoado por bárbaros! Esse caso me lembrou de uma amiga que, se estivesse viva para escutar essa história, diria , sem muito pensar, que eu imaginava coisas, e que o Zé apenas esqueceu de agradecer, sem que isso tivesse a ver com má educação e/ou orgulho! E que toda reflexão filosófica é vazia de sentido! Louco-mundo-louco!

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